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“um texto é um corpo que se recusa a acabar” – Ana Maria Vasconcelos
Todo mundo sabe que o ano só começa depois do carnaval. Pois meu 2026 só começa depois que eu virar mestre.
Sim: finalizei minha dissertação.
Não sei dizer se o que sinto é alívio.
Ano passado eu disse a todo mundo que quando entrar setembro eu ia me isolar para escrever. Mas, em vez disso, vivi uma série de pequenos colapsos que destruíram minha autoestima, minha sanidade, minha rede de apoio mais próxima, minha confiança em mim mesma, meu amor-próprio. Passei meses adiando essa escrita; arrumando gavetas, desenterrando memórias, revirando pedras, entornando o caldo, rasgando o peito, passando da conta, arrancando os cabelos, criando expectativas, arrumando caraminholas, perdendo tempo, alimentando angústias, fazendo de tudo — menos escrever.
Só quando não tinha mais tempo a perder, virei o calendário e comecei a escrever. E, para a minha surpresa, não queria parar.
Quando penso que não tenho mais nada a dizer, aí é que as palavras brotam.
Mesmo depois do texto aprovado pelo orientador, continuei escrevendo, continuei refinando, acrescentando, retocando, continuei agarrada àquele texto que eu quis tanto descartar, desistir, abandonar, esquecer, perder.
Mesmo agora, ainda penso em como posso continuar esse texto, escrevê-lo à sua máxima potência, invadir os e-mails dos digníssimos membros da banca e apagá-lo de lá, enviar outra versão, e mais outra, e mais outra. Não o largar jamais, não o submeter ao escrutínio da banca, não ouvir tudo o que pode ter de errado com ele, tudo que ainda pode ser aprimorado, ou tudo que nele já está suficiente, acabado, pronto. Quero continuar ninando esse texto em estado gestacional, sem jamais expô-lo a leituras injustas ou equivocadas que possam macular seu estado de imperfeita perfeição.
Não parece justo entregar ao mundo para caminhar com as próprias pernas algo que viveu por tanto tempo dentro de mim, me atormentando, me roubando noites de sono, me roubando momentos de convívio social, me roubando dias de praia e dias de farra. De novembro a janeiro foram quatro infecções de garganta até eu esgotar tudo o que precisava ser dito em palavra escrita – e nunca é suficiente.
Corpo em conflito
No início do mês participei da oficina “Poesia, corpo e conflito” ministrada pela Bruna Mitrano no evento Parque de Ideias na Biblioteca Parque Estadual do Rio de Janeiro. Foi meu presente para mim mesma por ter concluído essa etapa da escrita acadêmica: mergulhar de novo na escrita poética. Por mais que tudo o que eu escreva esteja sempre imbuído de poesia e eu tenha escrito alguns poemas aqui e ali nos últimos tempos, fazia tempo que eu não me propunha a escrever poesia com intenção – ainda mais durante três tardes inteiras.
Os exercícios, a princípio, foram desafiadores; não por serem particularmente complicados, mas porque escrever a partir de uma proposta específica e não de uma inspiração passageira ou de uma emoção do momento sempre exige um esforço mental, uma intenção e, muitas vezes, te força a acessar situações ou emoções a que você não recorreria normalmente para escrever. Te obriga a sair da caixinha, a experimentar, a tentar uma voz poética nova, um olhar novo sobre a escrita, a olhar para fora de si.
Para minha surpresa, não me senti bloqueada; pelo contrário, escrevi páginas e mais páginas de versos e estrofes até chegar a versões finais de poemas que agradaram à mediadora, à turma e a mim mesma. Me surpreendi ao ver que as palavras brotavam com facilidade, com ritmo, rima, sonoridade e na medida certa. Como se eu fosse alguém cuja vida é escrever poemas, veja só.
Quando me despedi da turma no último dia de oficina, tendo escrito pelo menos três poemas bem satisfatórios, meu corpo deu sinais de cansaço. Cheguei em casa, tomei um banho e me atirei na cama, exausta. Claro, teve o cansaço do deslocamento para o Centro do Rio três dias seguidos; para quem está acostumada a trabalhar do próprio quarto, é um movimento significativo. Mas não era só o cansaço do corpo. Senti aquele vazio de novo. O vazio que vem depois da conclusão de uma grande tarefa, de realizar um desejo.
O que vem depois?
Quem vê close, não vê corre
Ainda não passou o medo de defender essa dissertação perante uma banca de doutores que podem, com toda propriedade, não gostar do que escrevi ou dizer que eu podia ter me aprofundado mais, feito mais, lido mais, escrito mais. Embora saiba que todas essas prováveis recomendações terão apenas o intuito de me ajudar a ser — a continuar a ser — uma pesquisadora melhor.
É preciso dizer, e não terei coragem de fazê-lo perante a banca, que dois anos de mestrado não se traduzem em dois anos escrevendo uma dissertação. Durante esses anos de pós-graduação eu organizei duas edições do seminário de alunos da pós em Estudos de Literatura (o famigerado SAPPIL, que já virou gatilho aqui em casa), revisei e editei 6 volumes de publicações acadêmicas geradas desses seminários, apresentei minha pesquisa em 6 conferências acadêmicas, uma delas em Salvador-BA; participei de incontáveis saraus de poesia, lancei O livro das pedras, participei de 2 Flips, 3 Flopei, 1 Flin, mediei encontros da Casa das Poetas, ministrei 3 oficinas de zines e plaquetes, uma em Niterói, uma em Vitória-ES e uma na escola da minha infância, recebi um prêmio pela minha produção artística; tudo isso enquanto trabalhava 40h por semana como tradutora-bolsista para me sustentar.
Então, diante de tudo isso, pelo menos a vocês, meus leitores, admito que fiz o que pude. E espero que baste.
Defender essa dissertação também significa, finalmente, virar a página e encerrar o que talvez tenha sido o período mais solitário da minha vida até aqui. Todo mundo me disse que o mestrado era uma jornada muito singular e solitária e dolorosa, mas aviso nenhum te prepara para viver essa montanha-russa de emoções. Claro que tive muito apoio de amigos e familiares nesse período, mas só eu sei o que é viver tudo isso na minha pele. Mesmo entre meus colegas de pós, nos sentíamos isolados, à deriva, cada um agarrado à própria boia, tentando se salvar. Nessas horas, foi muito importante contar com o apoio da querida Larissa Picoro, que manteve sua boia agarrada à minha e, juntas, conseguimos chegar em terra firme.
E agora que sobrevivemos ao naufrágio, para onde seguir?
Continua no próximo capítulo
Minha dissertação já foi entregue, não há mais nada a ser feito e, no dia 27 de fevereiro, passará pelos ritos de avaliação que, se tudo der certo, vão me conferir o título de mestre; mas não quero encerrar essa história por aqui. Mais do que continuar a escrever esse texto, pretendo continuar a minha jornada de pesquisadora no doutorado em literatura comparada; não sei ainda se com o mesmo objeto, mas sei que quero continuar estudando poesia e tradução. É uma forma de unir paixão e ganha-pão.
Quanto à escrita, continuarei escrevendo poemas, produzindo zines e plaquetes e pensando formas alternativas de publicação independente, principalmente em papel. Quero mesclar mais a escrita e a colagem; publicar traduções; e, também, me aventurar mais na prosa de ficção, escrever alguns contos — e explorar ideias para um romance, talvez?
Depois de realizar um desejo, o melhor que podemos fazer é correr atrás de outros, pois é essa continuidade da busca que nos mantém em movimento, vivendo. Para 2026, o que desejo é: continuar.
Anexo
Algumas publicações para conhecer a minha pesquisa acadêmica:
“Um estudo de retraduções de um poema de Adelaide Crapsey em português”, publicado em Literatura em movimento, vol. 18;
“O cinquain de Adelaide Crapsey: uma forma poética concisa em língua inglesa”, publicado em Literatura em movimento, vol. 21;
Verse, de Adelaide Crapsey;
Verse em versão áudiolivro;
“A retradução como espaço da tradução”, de Antoine Berman. Tradução: Clarissa Prado Marini e Marie-Helène C. Torres
Notas de rodapé
O verso da Ana Maria Vasconcelos citado no subtítulo desta carta é do poema “10.litoral", do livro Longarinas, vencedor do Prêmio Oceanos de 2025 na categoria poesia;
O próximo encontro da Casa das Poetas será na segunda-feira, 23/02, às 20h. Vamos bater um papo com a autora Nina Rizzi sobre seu livro Diáspora não é lar. Inscreva-se aqui para participar gratuitamente desse encontro online;
O livro das pedras será tema do clube do livro Os bem-desconhecidos no dia 25/02. Entre em contato para participar do encontro online;
A foto que ilustra a miniatura desse post é de um quebra-cabeça que comecei a montar no Natal e ainda não concluí, mas pretendo continuar.



Lu, que texto bonito apesar dos causos caóticos, obrigada por isso! Ah e parabéns pela dissertação, continuemos mais um ano :)
Estou muito orgulhosa de vc e feliz de te ter de volta depois de longos meses de abdução acadêmica. Vai dar tudo certo da defesa. Beijão