Fugas
Fugere urbem é uma expressão latina usada originalmente pelo escritor Horácio que significa fuga da cidade. Foi o lema do arcadismo, movimento literário surgido na Europa do século XVIII, que tinha na natureza sua maior inspiração. A filosofia do carpe diem (“aproveite o dia”), que eu conheci através do filme Sociedade dos poetas mortos (1989), ganhou força nessa mesma época, um estímulo a gozar o momento presente. A valorização da vida campestre, a idealização do amor, a contemplação da natureza e a simplicidade são algumas das características do arcadismo, que também podemos identificar em outras produções artísticas posteriores ao período, como na canção “Casa no campo” de Tavito e Zé Rodrix, popularizada pela voz de Elis Regina.
Um sentimento comum a quem deseja fugir das redes sociais e do caos que se tornou a internet é fugir pro mato. É o que muita gente que podia fez durante a pandemia e acabou gostando do estilo de vida mais raiz, pé no chão. Como aquelas pessoas de realities do canal Off que metem a casa dentro de um trailer e saem explorando o mundo e fazendo parecer romântico dormir ao relento sob as estrelas – tudo devidamente documentado para a contemplação alheia, claro.
Uma versão digital de “ir pro mato” talvez seja deixar todas as redes sociais e voltar a usar a internet apenas para ler textos em sites, acompanhar e-mails de trabalho ou trocar mensagens com amigos – às vezes nem isso. Um amigo saiu do Instagram há alguns meses para se reconectar consigo mesmo e desfrutar da vida ao vivo, com menos mediação de telas no seu lazer, já que não dá para fugir delas no trabalho. Durante o período ele começou uma newsletter e escreveu alguns textos interessantíssimos sobre combater a tentação do modelo de internet consumista e desprovida de pensamento crítico dos bilionários. Admirei sua coragem, mas provavelmente não conseguiria fazer o mesmo.
Fora de área
Em abril conheci o Campo Base da Serra Geral dentro da Reserva Araponga em Santa Catarina. A primeira coisa de que senti falta ao chegar lá após três horas e meia de estrada e duas de avião não foi um casaco mais quente ou um guarda-chuva para enfrentar a garoa constante, mas a ausência de sinal de telefone. Internet, então, nem pensar. Nem 5G, nem 4G, nem 3G, muito menos 2G. A neblina grossa que nos recebeu no sopé da montanha não abria espaço para as ondas invisíveis de comunicação nem mesmo no deck de observação, único lugar garantido de se obter contato com o mundo exterior. Embora minha apreensão diante desse fato fosse a de não conseguir avisar minha mãe de que havíamos chegado em segurança, não posso negar que eu ansiava por postar um story para os amigos próximos mostrando onde eu estava. Já tinha pensado até a trilha sonora para embalar um reel com um vídeo do local.




Um grande problema dos aplicativos sociais hoje em dia é a tal rolagem infinita. Diferente de abrir um livro sabendo que pode fechá-lo e retomar a leitura de onde parou, a rolagem infinita dos aplicativos nos apresenta conteúdo ininterrupto, organizado de uma forma que, se você parar de rolar naquele instante, vai perder alguma coisa. E somos a geração do FOMO (fear of missing out, ou medo de ficar de fora), não queremos perder nada, então acabamos ficando mais 5 minutinhos e quando vimos lá se foram duas horas da vida aprendendo a enrolar o cabelo ou a remendar uma calça jeans, rindo de vídeos de gatinhos ou aprendendo mais um fato curioso sobre os bastidores de Senhor dos Anéis que você já está cansada de saber.
Meu pai tinha um objetivo nessa viagem: se desconectar. Eu tinha uma preocupação: me desconectar. Se eu não interagir com as pessoas do meu convívio, elas vão sentir minha falta? Se eu não escrever e postar alguma coisa, alguém vai perceber?




Sem rolagem infinita, me vi entregue ao verde infinito. Assim que a neblina se dissipou, pudemos apreciar as camadas de natureza que se desenrolavam à nossa frente, para cima, para baixo e para os lados. Começamos descendo pelo caminho por onde viemos, do Campo Base até a entrada da Reserva. Passamos por dois açudes, um pequeno refúgio de pedra, até chegarmos ao Caminho dos Dinossauros, apelidado assim pela idade das árvores que compõem a paisagem. Samambaias e xaxins gigantes, pinheiros e araucárias, árvores cobertas de musgo e líquen. Sons de pássaros e macacos ocultos no verde. Pequenos córregos de água mineral atravessando nosso caminho. Sem mapa, só uma vaga certeza de que ao final daquele caminho que sobe e desce chegaríamos a um destino. Uma rolagem finita, para variar.




No último dia, a chuva deu lugar a um céu azul e nos maravilhamos com a beleza da montanha. Fizemos uma trilha que descia por dentro da floresta até uma cachoeira com sete quedas e quase que não volto viva, tamanho meu despreparo físico para subir a trilha de volta.
Meu momento preferido da viagem, ainda que a companhia do meu pai nas horas frias e chuvosas jogando ludo tenha sido agradável, foi quando o acampamento se encheu de gente e a cozinha ficou abarrotada de novos campistas cozinhando e comendo e falando ao mesmo tempo. Gente estranha que se tornou amiga por uma noite, com quem reparti o vinho e o domínio do fogão, que me fez experimentar pinhão e assar marshmallows na fogueira. Gente que se reuniu no mirante para observar em silêncio as estrelas e o nascer do sol.




Eu amo uma paisagem natural. Amei caminhar pela grama e encontrar teias de aranha orvalhadas, cogumelos, florezinhas. Amei adentrar a floresta cheia de líquens, musgo, fungos. Amei escutar os sons da cachoeira e de animais não identificados na noite escura e ser saudada pelos sapos depois da chuva (e do susto inicial, claro). Mas amei ainda mais ter com quem compartilhar essas vivências.




De volta
Descobri com essa viagem que não tenho vocação para ermitã; me interessa muito conhecer lugares remotos e cheios de natureza selvagem, mas gosto de ter um Outro para dividir essas experiências. Fugir só faz sentido (pra mim) se eu puder voltar.
P.s.: meu amigo acabou voltando pro Instagram.
Escrevi esse texto na volta da viagem, em abril, mas por algum motivo não quis enviar. Achei apropriado enviar agora, enquanto penso em outras fugas.
O próximo encontro online da Casa das Poetas será com a Renata Ettinger e seu livro ]não cabe nas mãos[ no dia 29/10, às 20h. Inscreva-se grátis.
Alô, Vitória-ES! Dia 31/10 aterrisso por aí para o evento Mulheres na cidade a partir das 17h30 na Biblioteca Municipal Adelpho Poli Monjardim, no Centro de Vitoria (Rua Muniz Freire, n. 23). Estarei junto com CARLA GUERSON , Thaís Campolina, Marcela Alves e Aline Dias. Vai ter conversa, oficina de poesia, sarau e muito mais!



E é claro que a reflexão contida ali dentro dessa natureza toda é o grande dilema hoje, as redes que nos aprisionam e nos aproximam...
Você descreve sua experiência com uma linguagem tão pura que dá pra sentir o cheiro do mato e molhar as mãos com o orvalho. Amei.