Fugas II
monotemática, eu?
Fuga (um conto)
Ela queria fugir. Não sabia pra onde, não sabia como. Só sabia que não aguentava mais ficar onde estava. Fechou os olhos, respirando profundamente, a cabeça e as costas apoiadas na porta que batera com força. Não aguentava mais tudo aquilo. Queria ir embora, ir pra bem longe, e não ter mais que suportar tanto sofrimento.
Ela tinha tanta mágoa, tanta dor, que nem lembrava mais o que era ser feliz. Nem sabia mais como sorrir. Não vivia; sobrevivia. Passava os dias da mesma forma, sem nenhuma mudança, nenhuma melhora. Sua vida continuava do mesmo jeito que sempre fora, medíocre, e isso lhe doía cada vez mais. A cada ano que passava, a consciência da sua desgraça aumentava. E ela não podia mais aguentar.
Trancou a porta do quarto, e se permitiu deslizar por esta até sentar-se no chão, a cabeça pendendo para o lado, as lágrimas se segurando para não rolarem por seu rosto, adiando o choque entre a água morna de seus olhos na bochecha ainda quente da bofetada que levara. Apertou os olhos ainda mais forte, impedindo as famigeradas de lavarem seu rosto de porcelana. Por quê? Por que ela tinha que passar por tudo aquilo? Por que não podia ter uma vida normal, como todo mundo?
Abriu os olhos lentamente, encarando seus pés nas botas de cadarço que iam até quase nos seus joelhos. Abraçou as pernas e enterrou a cabeça entre os joelhos, chorando toda a sua tristeza.
Cessou o choro, e se arrastou pelo chão até uma tábua solta no assoalho. Soltou a tábua com cuidado, retirando de dentro do buraco no chão algumas notas de dinheiro enroladas num elástico, e uma pequena caixinha preta, que continha uma corrente de ouro com um medalhão, que fora da avó. Beijou o medalhão, e o colocou em volta do pescoço, escondendo-o por baixo da blusa preta. Ergueu-se agilmente, escutando a mãe bater na porta. Ignorou o chamado.
Abriu a porta do armário, tirando de dentro uma mochila grande e vermelha, e começou a meter ali algumas roupas e qualquer coisa que lhe fosse útil; meteu também o dinheiro, alguns livros e CD’s que estimava, assim como seu disc-man, um caderno e uma caneta; não podia ficar sem escrever. Vestiu o casaco de capuz, jogou a mochila nas costas e saiu do quarto. A mãe estava na área de serviço, e não viu quando ela fechou a porta da casa atrás de si, deixando um pedaço de folha de caderno rabiscado no chão: “Adeus”
Sua vida sempre fora igual desde bem pequena; ela não lembrava direito se um dia fora diferente. Morava num apartamento pequeno, de dois quartos com a mãe e o pai, que brigavam constantemente pela falta de dinheiro. A lembrança mais remota de Lúcia era de estar ali, no mesmo quarto, encolhida num canto, escutando a briga entre eles.
O tempo foi passando, e ela foi crescendo naquele ambiente instável, o pai e a mãe sempre infelizes, trabalhando fora em tempo integral para sustentar a ‘família’.
Lúcia cursava o Ensino Médio, e quando não estava na escola estava andando a esmo pelas ruas ou trancada no quarto escrevendo e escutando música. Não gostava de fazer as tarefas domésticas, só fazia-as quando era obrigada pela mãe, que sempre reclamava de a filha ser uma imprestável. Mas a garota nunca se deixou magoar por essas ofensas; já estava acostumada. Mas sonhava em melhorar a sua vida, e a da mãe também, para que essa parasse de infernizá-la com suas queixas e injúrias.
Agora, com seus dezessete anos, às vésperas do vestibular, não sabia que rumo dar à sua vida. E era tanta pressão: da escola, da mãe, do pai, do mundo. Sempre fora uma aluna exemplar, sempre ganhara bolsas de estudos na escola, mas nesse último ano, estudar parecia impossível. Não tinha ânimo, não tinha vontade de estudar, de viver, de ser alguém; a mãe sempre lhe atirava na cara que acabaria uma fracassada, como ela; talvez fosse verdade. Não, tinha que ser forte; tinha que lutar para ser alguém melhor, alcançar os seus sonhos.
E quais eram os seus sonhos? Atualmente, deixar aquela casa, aquela vida que a fazia doente. E depois? Depois, não sabia. Descobriria um jeito de ser feliz. Longe dali.
E naquela tarde, tinha sido a gota d’água. Chegara em casa com uma nota baixa em uma prova, e a mãe lhe recebera com tapas e palavras duras. Pensando bem, a surra não fora despropositada. Já há algum tempo Lúcia vinha desrespeitando a mãe, não cumprindo suas ordens e chegando sempre tarde em casa. E ela nunca estudava, correndo o risco de perder a bolsa de estudos e acarretando mais problemas financeiros. E o recente problema alcoólico do pai estava deixando sua mãe ainda mais louca e sem saber o que fazer. Teve pena. Mas, ao mesmo tempo, achou que a melhor maneira de ajudar sua pobre mãe seria indo embora para sempre, já que ela era mesmo um estorvo tão grande. Com esse pensamento, atravessou a rua movimentada do centro da cidade, já fora do prédio em que desejava não ter mais que morar, caminhando em direção à rodoviária.
Mesmo decidida a trilhar seu caminho sozinha no mundo, numa outra cidade, entre favores, caronas, bicos e qualquer coisa que aparecesse, continuava a se sentir culpada por deixar a mãe. Mesmo que essa nunca tenha parecido amá-la. Do pai, sabia que não sentiria saudades; tinha ódio de tudo o que ele fizera a ela e à sua mãe, e novamente pensou em como ela sofreria sem a filha para ampará-la. Estaria Lúcia sendo egoísta ao pensar somente em sua felicidade? Afinal, se sua mãe cobrava tanto que ela tirasse boas notas e conseguisse entrar numa faculdade pública, não é por que ela a amava e queria o melhor para ela?
No saguão da rodoviária, que não era tão longe de sua casa, viu várias pessoas de todos os tipos, indo e vindo de vários lugares. Para onde ela deveria ir? Qual seria o seu lugar no mundo? Londres, pensou, com um sorriso amargo. E percebeu que fugindo dessa maneira ela só estaria tornando o sonho mais impossível ainda. Mas, talvez, ela pudesse ser descoberta em algum bar de uma cidade qualquer, como uma excelente cantora e então ficar famosa e ir morar em Londres. Acontecia o tempo todo, certo? Não, pensou Lúcia novamente. Nem ela acreditava mais nas próprias mentiras que inventava para se sentir melhor.
A garota permaneceu na rodoviária até anoitecer, o que durou mais ou menos umas duas horas, pensando no que fazer.
E, então, veio o medo. O medo de se descobrir sozinha no mundo, sem família, sem amigos, sem casa, sem ninguém. Sozinha num bar de beira de estrada, sob condições que ela nem queria imaginar. Pensou no que a mãe faria quando visse que a filha tinha fugido. Ficaria satisfeita? Ligaria para a polícia e lhe daria uma surra quando a encontrassem? Ou será que nem se importaria? Ou, quem sabe, ficaria terrivelmente abalada e se arrependeria de todo o mal que lhe fizera?
Ela não podia fazer isso. Não podia simplesmente ir embora. Afinal, que tipo de filha era ela? Que tipo de ser humano abandona a mãe à própria sorte, quando esta nunca fez nada mais que desejar que ela fosse feliz, mesmo que expressasse tal desejo de forma meio torta? E, depois, Lúcia e a mãe nem sempre foram inimigas. Quando ela era criança, sua mãe era sua maior heroína, seu refúgio. Mas, com a chegada da adolescência e das grandes crises familiares, as duas mulheres foram se afastando. Mas ainda havia tempo. Elas podiam voltar a ser amigas. Só precisavam conversar. Nem tudo tinha que ser resolvido com brigas e lágrimas. Ainda havia esperança, certo?
Lúcia correu de volta para casa e, quando ia atravessar a rua em frente ao prédio que morava, avistou a mãe, aos prantos, sendo amparada pelo porteiro, olhando por todos os lados, procurando. Olhou para a frente, viu a filha, e sorriu de alívio. “Mãe...” A garota chorou, e antes que pudesse fazer qualquer movimento, a mãe veio em sua direção, atravessando a rua sem olhar para os lados. Um carro buzinou e freou antes que uma tragédia acontecesse, e mãe e filha se encontraram no meio da rua, parando o trânsito, em meio a buzinas e xingamentos dos motoristas irados.
“Me desculpa, mãe, eu não devia ter ido embora...” “Minha filha, vamos conversar em casa. Eu sei que as coisas estão confusas, mas nós duas vamos conseguir resolver isso juntas.”
O porteiro encaminhou mãe e filha de volta para o prédio antes que o guarda pudesse multá-las por obstruir o trânsito, e as duas voltaram para casa, abraçadas e de mãos dadas.
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Este conto recebeu menção honrosa no VII Concurso Municipal de Conto de Niterói em 2008.
Fugir ou ficar
Quando criança, tive uma briga qualquer com meus pais. Falei (ou pensei?) que ia fugir de casa. Era noite. Juntei meus bichinhos de pelúcia preferidos debaixo do braço e fui até a porta da sala, de camisola. Fiquei brincando com as chaves na altura dos meus olhos, fingindo girar, olhando para o retângulo iluminado no fim do corredor onde eles estavam assistindo TV na cama. Não sei se cheguei a girar a chave e a maçaneta, mas sei que tive medo da ideia. O corredor branco e frio à minha frente. Um grande desconhecido para além dos domínios do prédio. Quando vi que ninguém vinha me impedir, desisti de fugir e voltei pro meu quarto. Meus pais nem tomaram conhecimento.
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Minhas brincadeiras de Barbie sempre envolviam fugas. Princesas com elaborados vestidos de festa fugindo a cavalo de madrastas e reis cruéis, encontrando um belo príncipe no meio do caminho. O desenvolvimento das personagens era precário, os desfechos, clichês. Sempre um casamento ou uma interrupção para brincar de outra coisa. Gastava mais tempo mesmo na preparação da fuga. As malas, os apetrechos. Por que minhas personagens precisavam fugir, não podiam só viajar? E sempre sozinhas. No máximo com um gato a tiracolo. Não tinham amigas as minhas princesas. Só algozes e salvadores. Meio triste essa vida de boneca.
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O que eu mais gostava de brincar de boneca não eram as histórias em si, que eram sempre adaptações de novelas, desenhos animados e contos de fadas, portanto, pouco originais. Gostava mesmo de arrumar os cenários, decidir os figurinos. Às vezes passava horas montando um penteado elaborado. Ou uma traquitana à guisa de charrete para carregar as malas na fuga. Olhava para os móveis do meu quarto e imaginava o cenário daquelas histórias: a cama, uma cadeia de montanhas que precisava ser escalada (a brincadeira se dava sempre no chão). Na mesa de cabeceira, talvez uma cachoeira.
Minhas bonecas tinham uma casa improvisada com a criatividade da minha mãe. Tinham quarto, sala, cozinha, banheiro, sala de chá e até um terraço com piscina, uma praia particular com rede de vôlei e rede de deitar. Mas minhas bonecas pouco habitavam essa casa. A história estava sempre fora dela.
Nômade
Aonde quer que eu vá
carrego minha casa nas costasPronta para ficar
livre para partir
num constante ir e virDeus me livre criar raízes
quando há tantos caminhos a seguir— O livro das pedras, p. 79
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Meu bisavô materno fugiu de uma guerra. A filha dele fugiu de um convento. O marido dela fugiu da escola. Meus pais deixaram a cidade onde nasceram. Vários amigos fugiram do Brasil atrás de condições melhores de vida. Todos viveram grandes aventuras em suas fugas.
Eu nunca saí de casa, a não ser para morar um ano fora do país, com passagem de volta marcada. Fugi de umas roubadas, mas acabei caindo em outras. Fugi do curso de Letras, mas acabei reencontrando-o no mestrado. Fugi de amores para trombar com eles em outras esquinas. Fugi de decepções e acabei encontrando outras. Fugi da escrita, mas ela sempre me pega de volta. Concluo que nunca aprendi a fugir de verdade. Acabo sempre voltando: pro amor, pra casa, pra família, pra escrita. Até lugares que jurei nunca mais visitar eu voltei a pisar. Algo sempre me puxa de volta. Às vezes me sinto como o personagem do Jim Carrey em O show de Truman, tentando em vão escapar da realidade fabricada que o mantém cativo para entretenimento alheio. Outras vezes me sinto como um porto, apenas observando chegadas e partidas sem nunca sair do lugar. Ou um carrossel.
Carrossel
A cada volta do carrossel
me sinto mais longe do que já fui
e mais perto do que posso serDistante do que passou
e quase onde quero chegarEsticando os braços para o futuro
antes do passado me alcançarAté perceber
que nunca saí do lugar— É na cacofonia que eu me escuto, p. 34
Fugir tem seu encanto. Mas talvez no meu caso, não seja pra tanto. Talvez eu tenha nascido para ficar. Fincar raízes. Regar, de vez em quando. E ter paciência para ver crescer e colher os frutos.
Ciclo da vida
Onde jaz a mãe de ontem
cresce uma castanheira
presente dos passarinhos
que plantam árvores
para colher ninhosSábia é a mãe de hoje
que regou essas sementes
para que as mães de amanhã
possam colher os presentes— poema publicado na Fazia poesia
Outras fugas
No fim de semana passado estive em Vitória-ES com a Aline Dias, a CARLA GUERSON, a Marcela Alves, a Thaís Campolina e outras amigas poetas no evento Mulheres na cidade. Foi uma deliciosa fuga da rotina e um mergulho profundo nas nossas poéticas e nos laços que nos unem, como mulheres, artistas e amigas. Falei um pouco sobre esse encontro no Instagram:
Hoje passei o dia em uma oficina de encadernação montando um caderno com costura francesa e copta. Fazer coisas com as mãos me ajuda a fugir do que atormenta a minha cabeça.


Amanhã (10/11) vou pisar em Salvador pela primeira vez para apresentar uma comunicação sobre Adelaide Crapsey e a tradução do cinquain no Encontro Nacional de Pesquisa em Tradução (Entrad). Terei uma agenda corrida, mas aceito sugestões de passeios — e encontros.
Leituras recentes
]não cabe nas mãos[, da Renata Ettinger (poesia)
ninguém me obedece, muito menos eu, da Carla Guerson (poesia)
Vida em Marte, da Tracy K. Smith (poesia, tradução da Stephanie Borges)




Que belíssima edição! Também sempre fantasiei com uma fuga. Nada muito elaborado (aí também já é pedir demais), mas na minha cabeça sempre havia a possibilidade de pegar um ônibus intermunicipal sem sequer olhar a placa e sair daquele marasmo de cidade onde eu morava. Então essa saída me serviu de bote salva-vidas por um bom tempo, meio que flutuando à vista com uma plaquinha escrito “esperança”. Até que não precisei fugir, e só me mudei mesmo. Nem tudo precisa ser cinematográfico, mas ajuda saber que há essa opção. Às vezes, é tudo que a gente precisa ❤️
Gostei muito!👏🏻