Lilás
um devaneio
Num sábado azul, me visto de lilás dos pés à cabeça e saio para ver o mar.
O mar sempre me salga os olhos, me faz marejar.
O mar sempre me salva os sábados de serem demasiado áridos na minha infinita solidão.
Por que esse suspiro, se somos todos sós em nossas multitudes? Por que essas lágrimas ao encarar um céu azul sem nuvens?
Os dias bonitos e ensolarados me doem mais por sua luz dourada que os dias cinzentos e mortos. A beleza me encanta e me espanta, me ataca e desarma. Diante da beleza, só me resta chorar; sorrir? Chorar.
Os dias bonitos são mais tristes quando não tenho com quem os compartilhar. Um dia feio não carece de companhia, é todo meu para acalentar. Mas dias de sol me dão ímpetos de velejar, correr, saltar, tomar banho de mar; dias de sol pedem crianças e cachorros, falatório e alvoroço.
Minha solidão brilha mais ao sol.
Culpo o lilás pela melancolia. Essa mistura de vermelho e azul, quente e frio, alegre e triste.
Mas não importa a roupa ou o dia, sou sempre lilás. Ora mais quente, ora mais fria, ora mais isto, ora mais aquilo. Nem alegre nem triste.
Lilás é a minha solidão; por vezes contente, por vezes insatisfeita, como quem falta um pedaço. Mas como, se já sou inteira? Inteira amor, inteira dor, numa angustiante mistura.
Lilás é essa dor que carrego por trás de cada sorriso.
Lilás é esse amor que não encontra abrigo.
Lilás como os hematomas que tingem minha pele sem aviso.
Lilás como o entardecer de um dia bonito antes de se metamorfosear em noite escura.
Os dias bonitos não me pertencem, mas as noites são todas minhas.
Ser lilás e sozinha à noite é como ter o mundo aos meus pés; todos os meus desejos cabem na penumbra e ninguém me vigia. Na solidão do meu quarto, sou livre e sou minha.
Livre para sonhar sonhos lilases... que não sobrevivem à luz do dia.
Bilhetinhos
Assisti à Nausicaä do Vale do Vento (1984) esses dias. Num mundo pós-apocalíptico em que a Terra foi quase inteiramente devastada por um mar podre que intoxica tudo e a todos, o pequeno Vale do Vento aprendeu a conviver em equilíbrio com a natureza, graças à inteligência e à empatia de sua princesa, Nausicaä. Mas humanos gananciosos e sedentos de poder ameaçam esse equilíbrio e o futuro da humanidade com destruição e ignorância. Parece até um filme que já vimos por aí muitas vezes.
Saiu um poeminha carnavalesco na Fazia Poesia, escrito a partir de um sonho besta de três anos atrás: Triângulo da alegria.
Anotações da aula de teoria literária: “um poema é um acontecimento que não se desenvolve no tempo”; “a liberdade mais absoluta é apenas ser”.
Agenda
26/03: Encontro online da Casa das Poetas com a Priscila Branco e o livro Desenterrar os ossos, a partir das 19h30. Inscrições aqui.
28/03: Festa da Patuá no RJ. Sessões de autógrafos de vários autores, incluindo esta que vos fala, com Amor Recreativo. A partir das 15h no restaurante Bafo da Prainha no Largo de São Francisco da Prainha.










